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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Visão Sustentável Edição 37_A saúde do hospital na gestão sustentável e consciente


É incrível a capacidade de adaptação do conceito de sustentabilidade às mais diversas áreas da atividade humana. Se há facilidade em propor sua aplicação em novas atividades – startup's e empreendimentos conceituais –, por outro lado, há de se reconhecer a dificuldade e criatividade no uso de práticas sustentáveis em atividades centenárias e já consolidadas, como a da saúde.

Iniciada na década de 1990, pelo britânico John Elkington, as práticas de sustentabilidade na gestão hospitalar baseiam-se no tripé aspectos econômicos, sociais e ambientais. De acordo com Marcelo Durante Bittencourt, mestre em Administração com ênfase em Sustentabilidade Hospitalar pela Universidade Udelmar (Chile), os pilares de Elkington repercutem em ações socioeconômicas, socioambientais e de ecoeficiência.

“Esses aspectos atingem globalmente toda a cadeia de valores do negócio hospitalar, abrangendo tanto as atividades econômico-administrativas e médico-assistenciais quanto toda a sociedade envolvida, pacientes, clientes, acompanhantes, governantes, fornecedores e demais stakeholders”, afirma.

Dessa forma, um dos principais objetivos da sustentabilidade aplicada na gestão hospitalar é a redução de consumo e impacto ambiental. No entanto, as ações não são reduzidas às práticas administrativas, mas sim na conscientização e promoção do envolvimento de todo o corpo funcional da entidade e do hospital com a comunidade em que está inserido.

“A interação com toda a comunidade adjacente, clientes e usuários, corpo de colaboradores, médicos e principalmente fornecedores, visa a divulgar e conscientizar para as melhores práticas de sustentabilidade a serem praticadas e disseminadas, para que se torne uma nova mudança de postura de todos, objetivando maior reflexão para o consumo consciente, atuando de forma responsável e mais humana nas ações e atividades desenvolvidas por todos os integrantes dessa atividade hospitalar”, afirma Bittencourt.

Gestão responsável na área da saúde

Apesar do conceito de sustentabilidade aplicado à saúde ter iniciado na década de 90, na Inglaterra, seu uso na gestão hospitalar no Brasil ainda é incipiente, sendo foco de preocupação de poucas instituições, ou em ações isoladas no gerenciamento do hospital.

Uma das instituições que encamparam o conceito de sustentabilidade na área da saúde e vem se preocupando cada vez mais na sua aplicação às ações macro de gestão dos hospitais é a Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar (Pró-Saúde), instituição que atua desde 1967, quando iniciou a gestão do primeiro hospital da instituição, em João Monlevade (MG).

Atualmente, a Pró-Saúde está presente em 59 projetos: 34 hospitais, 02 Serviços de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), 4 Unidades de Pronto Atendimento (Upas) e 19 Unidades Básicas de Saúde (UBS), além de atuar com a formação de profissionais de saúde com cursos, seminários e Pós-Graduação/MBA em Gestão Hospitalar e Gestão da Qualidade em Serviços de Saúde.

Para Bittencourt, que é diretor operacional da Pró-Saúde, o uso da sustentabilidade na saúde ainda é pouco no Brasil  em virtude da falta de divulgação, e principalmente da pouca atenção das instituições hospitalares à importância de uma gestão sustentável aplicada às práticas hospitalares. “No segmento saúde, pouquíssimas instituições atentaram-se para a importância da sustentabilidade. Isso como exemplo de grandes complexos hospitalares que existem no país e nada se preocuparam ainda com esse tema”, critica.

Apesar disso, Bittencourt acredita que esse quadro será revertido em poucos anos, devido à divulgação de ações, como as desempenhadas pela Pró-Saúde, que colhem frutos nas atitudes sustentáveis das gestões hospitalares. “É uma questão de mais alguns anos para que essas instituições despertem e vejam o quanto seu papel é importante nessa cadeia produtiva. Até lá, instrumentos e veículos de comunicação, como a própria revista especializada da Geração Sustentável, possuem papel fundamental e de grande importância na disseminação do conhecimento, pois com a maciça divulgação, bem como criação de cursos em sustentabilidade, é que teremos instituições mais saudáveis e perpetuando para futuras gerações de forma mais consciente e sustentável, sem degradar o meio ambiente”.

Hospital Municipal de Araucária (PR): modelo de gestão consciente na área da saúde

Inaugurado em 2008, e desde o início gerido pela Pró-Saúde, o Hospital Municipal de Araucária (HMA) vem despontando como exemplo de gestão sustentável, e um dos carros-chefes da Pró-Saúde na implantação de ações ambientalmente consciente.

O HMA conta com estrutura de 110 leitos, sendo o único hospital da cidade a atuar em atendimentos de urgência e emergência, cirúrgicos, ambulatoriais, internações e partos, representando referência para os mais de 100 mil habitantes da região. Em média, 6 mil pessoas são atendidas mensalmente pelo HMA, todos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Se no mercado inúmeras práticas e ferramentas complexas de consultorias são utilizadas para o auxílio de uma boa gestão da qualidade e da sustentabilidade na área de saúde, para Bittencourt, nas ações do HMA, soluções simples, mas de um alcance ambiental e social imenso, foram implantadas paulatinamente na gestão.

“Desde o início da abertura do HMA, focamos para a estruturação de uma gestão sustentável, e esse foco também é disseminado para as demais instituições hospitalares em que a Pró Saúde atua, evidentemente dentro da capacidade de atuação e adaptações necessárias a cada tipo de projeto de saúde. Mas como digo, fazer ações sustentáveis é possível em qualquer tipo de hospital, clínica, UBS, UPA, Laboratório e demais serviços de saúde, desde que se tenha foco no que desejar ser realizado e pelo menos iniciar as boas práticas de gestão sustentável”, pondera o diretor da Pró-Saúde.

Entre as ações desempenhadas pelo HMA, destacam-se a formação de uma comissão responsável por debater e propor soluções para a diminuição de resíduos hospitalares e para a destinação correta do lixo. As ações promoveram redução de 12% de lixo entre 2011 e 2012, ou seja, nesse período, o Hospital deixou de produzir mais de 10 toneladas de resíduos – com reaproveitamento de talos e cascas de alimentos promovidos pela equipe de nutricionistas do Hospital – além de diminuir cerca de 32% do consumo de copos plásticos, com a substituições por canecas de cerâmica.

O banimento do uso de produtos que contenham mercúrio é outra ação realizada pelo HMA, que é signatário do Mercury Free Health Care, da Organização Saúde Sem Dano. Em sua forma líquida, o mercúrio é muito volátil, e, quando inalado, pode causar inúmeros problemas de saúde, sobretudo no sistema nervoso, que pode causar efeitos desastrosos como lesões e até a morte, dependendo do nível de concentração. O HMA, desde 2010, lançou uma normativa interna proibindo a compra e o uso de qualquer produto que contenha mercúrio.

E eliminação de mais de 700 litros de resíduos altamente tóxicos e poluentes foi outra conquista do HMA, com a implantação de sistema de digitalização de exames médicos, o que reduz o uso desses agentes tóxicos, por exemplo, na revelação de filmes raios X.

A aplicação de práticas sustentáveis da Pró-Saúde no HMA, como já mencionado, não se restringe às ações voltadas para a gestão administrativa interna. A entidade se preocupa em manter relações promissoras com a comunidade e com a Prefeitura de Araucária, como no projeto Vale Vida. No momento da alta de cada bebê nascido no HMA, a enfermagem acompanha os pais até a recepção do Hospital e entrega a eles uma muda de árvore com um panfleto mostrando a importância da arborização da cidade para a saúde do bebê no decorrer da vida. No período de um ano, cerca de 1.700 mudas de árvores foram distribuídas.

De acordo com o diretor da Pró-Saúde, pelo sucesso das ações e o empenho do corpo funcional do Hospital, o HMA tornou-se um dos emblemas da instituição gestora nas práticas sustentáveis. “O HMA é nosso maior referencial, pois iniciamos essas práticas com pensamento e postura voltados para a qualidade e sustentabilidade, desde a abertura do hospital, em 2008. Dessa forma, todo o planejamento foi feito com base nesses princípios essenciais. Com o passar dos anos, naturalmente fomos reconhecidos por diversas instituições que chancelaram nossas práticas, reconhecendo que uma gestão técnica e profissional focada com princípios sólidos, certamente teria sucesso, o qual poderá estar disponível para toda a sociedade que se utiliza dos serviços desse hospital, fazendo com que todos ganhem”.

Relatório Internacional de Sustentabilidade

É recorrente a busca de certificações, selos e timbres de instituições neutras e de reconhecimento público nas atuações e gestões de empresas e instituições dos mais diversos setores de serviço e produção.

Nas práticas sustentáveis, um dos reconhecimentos é o Relatório Anual de Gestão e Sustentabilidade, fundamentado em inúmeros indicadores de performance que foram padronizados pela GRI (Global Reporting Initiative), sediado na Holanda, onde estabelece níveis de complexidade e amplitude de informações em várias etapas do aprimoramento da gestão focada em sustentabilidade.

O Hospital Municipal de Araucária, gerido pela Pró-Saúde, foi o segundo hospital da América Latina a publicar um relatório com selo de verificação da GRI (Level C), em 2011. São mensurados mensalmente no relatório todos os aspectos que impactam de forma socioeconômica-ambiental, além de realizada análises críticas para a busca da melhoria do desempenho, disseminando para todas as partes envolvidas.

Segundo Bittencourt, a certificação GRI é um reconhecimento de que as ações da Pró-Saúde, frente à administração do Hospital de Araucária, estão no rumo certo. “O reconhecimento pela GRI, uma organização neutra e internacional, reflete na chancela de que estamos trilhando o caminho certo, um caminho sem volta para as organizações responsáveis socioambientalmente e sendo reconhecida em caráter mundial. A GRI reconhece e certifica toda e qualquer instituição empresarial, com base nesses relatórios padronizados e que serve como selo das boas práticas da Gestão Sustentável em nível mundial”. 

http://issuu.com/revistageracaosustentavel/docs/gs_37_protagonismo_sustentabilidade


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